fora de jogo


Num país onde a crise definha e o mercado regurgita saldos, a dança política não reaprecia que a moral se mantém porque no futebol ainda há goleadas, e seria antídoto à dita crise se assim fosse em todos os quadrantes clubísticos. E hoje é uma prova de mais do mesmo, onde o estádio se levanta e em casa as molas do sofá oscilam, e a crise se esquece. Hoje é dia de dérbi, do país parar e respirar futebol. E era assim também para Sistólico e Diastólico. Era um dia importante. Cravados na montra de uma loja de electrodomésticos tinham só para eles a mais alta gama de televisões, três delas a acompanhar o jogo e outras duas presas a episódios especiais de novelas. O passeio ia-se compondo de público, uns iam aplaudindo uma equipa, outros iam vangloriando os resultados de outra. Mas, Sistólico e Diastólico, presos no meio de tanta euforia e oscilação, apoiavam não as equipas mas sim àquele a quem o mundo crucificava de relevância desportiva … o árbitro. Ali estavam eles fiéis à minoria de quatro figuras singelas apoiadas no infortúnio. E era ver desesperar com uma arbitragem sóbria e consistente e vê-los vibrar com um decisão errada, um fora de jogo inexistente, um pénalti por marcar ou mesmo um golo anulado. Isso é que era arte de saber contornar jogar sem jogar, fazer espumar os adeptos em suores frios e taquicardias inconsoláveis…. para quê a crise, com o futebol aqui tão perto?!….

Crónica III

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