Aprender a voar


Sistólico e Diastólico iniciavam mais uma das suas caminhadas pelo bairro, onde proliferava uma panóplia de gente de fato desportivo às voltas e voltas sem destino, mas com um sentido oportuno apontado ao bem-estar de cada um. A irmandade mantinha a boa intenção, mas não abandonava a oportunidade de encurtar ou rastrear tais caminhadas; e assim foi, quando avistaram Populino, homem hábil nas palavras e desenvolto na fantasia. Desviaram seus caminhos e acercaram-se furtivamente de Populino. Este, sempre pronto a desembainhar uma história, avançou: quando era miúdo perguntei aos meus pais, se saltasse pela janela voaria como o super-homem. Interrogação que eles prontamente desmistificaram, irrompendo tais fantasias, preocupados pela sustentabilidade de um segundo andar.
Após pequena e silenciosa pausa, Sistólico mantinha sustida a inspiração e Diastólico a expiração, tentando visualizar os colãs azuis e a imponente capa vermelha a pender para o encarnado. Populino mantinha-se indiferente ao esbugalhado ar sinusado da irmandade, quando desembrulhou mais meia dúzia de palavras, apontando à conclusão, retorquiu: e penso, sem qualquer espécie de dúvida, que foi desde esse tempo que nunca mais parei de voar…


  Crónica XXIV

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