Iluminação pública

  
Sistólico e Diastólico barricaram-se em casa com medo de serem contaminados pela crise e mantinham a esperança de passar ao lado te tal maleita; tinham reforçado as portas e trancado as janelas, refundidos na penumbra interior, quando ouviram a voz de Populino vindo da rua, por de trás de paredes tão fiáveis, apelando à irmandade para que esta saísse à rua. Diastólico ainda suspeitou que fosse alguém contaminado, que os tentava enganar para lhes transmitir tal enfermidade. Pelas dúvidas, Sistólico esgueirou-se pelo seu equilíbrio desafinado nas costas de seu irmão, tentando espreitar pela fresta da única janela que ainda transpirava alguma luz. Após alguns balanços encadeados pela escassa, mas penetrante luz, Diástólico não resistiu a tal equilíbrio, esbarrado nas suas curvas anafadas e, antes mesmo que vislumbrassem qualquer cenário, acabaram estatelados no chão. As janelas nem sempre servem para ver o que se passa lá fora, às vezes servem para iluminar o que vai cá dentro.


Crónica XXV

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